REFLEXÕES

 

 

REFLEXÃO 1 - RAMÓN SAMPEDRO (Sobre o filme "Mar Adentro", de Alejandro Almenábar, Espanha, 2004)

Para quem não conhece a história de Ramón Sampedro: 


Ramón Sampedro era um espanhol, tetraplégico desde os 26 anos, que solicitou à justiça espanhola o direito de morrer, por não mais suportar viver. Ramón Sampedro permaneceu tetraplégico por 29 anos. A sua luta judicial demorou cinco anos. O direito à eutanásia ativa voluntária não lhe foi concedido, pois a lei espanhola caracterizaria este tipo de ação como homicídio. Com o auxílio de amigos planejou a sua morte de maneira a não incriminar sua família ou seus amigos. Em novembro de 1997, mudou-se de sua cidade, Porto do Son/Galícia-Espanha, para La Coruña, 30 km distante. Tinha a assistência diária de seus amigos, pois não era capaz de realizar qualquer atividade devido a tetraplegia. No dia 15 de janeiro de 1998 foi encontrado morto, de manhã, por uma das amigas que o auxiliava. A necropsia indicou que a sua morte foi causada por ingestão de cianureto. Ele gravou em vídeo os seus últimos minutos de vida. Nesta fita fica evidente que os amigos colaboraram colocando o copo com um canudo ao alcance da sua boca, porém fica igualmente documentado que foi ele quem fez a ação de colocar o canudo na boca e sugar o conteúdo do copo. A repercussão do caso foi mundial, tendo tido destaque na imprensa como morte assistida. A amiga de Ramón Sampedro foi incriminada pela polícia como sendo a responsável pelo homicídio. Um movimento internacional de pessoas enviou cartas "confessando o mesmo crime". A justiça, alegando impossibilidade de levantar todas as evidências, acabou arquivando o processo. (...) Em 2003 foi rodado um filme espanhol sobre este caso, com o diretor espanhol Alejandro Amenábar. O título do filme é Mar Adentro. O diretor caracterizou o seu filme como sendo "una visión de la muerte desde la vida, desde lo cotidiano, lo natural, desde un lado muy luminoso". 

https://www.bioetica.ufrgs.br/sampedro.htm

 

https://www.youtube.com/watch?v=IZSRzseb3vg

ramon sampedro (derecho a morir)

 

https://www.youtube.com/watch?v=t9r7cSokEag

Mar adentro (FINAL) Ramón Sampedro

......................................................

 

O que teria sido a vida de Ramón Sampedro, se ele não tivesse tomado a decisão que tomou? Resolvi pegar o livro de poemas escrito por ele e o vasculhei para ver se encontrava alguma coisa, algum registro seu, que pudesse justificar suas razões. Encontrei algo: o Epílogo escrito por Javier Bardem, o ator que viveu o personagem principal no filme. Creio que ninguém melhor que ele - quem sabe - para tentar expressar os verdadeiros sentimentos e a vida de Sampedro que ele encarnou no Cinema. Encontrei, em especial, isto: "(...) ésa es la mirada de Ramón Sampedro, la de un amor incondicional de él hacia nosotros, abrazando nuestras contradicciones y acariciándolas con su sonrisa."

Veja o trecho:

"(...) No entres en el cuarto oscuro, que hay un monstruo dentro que te va a comer, pequeñin, le dice el papi al niño para que no le desordene el despacho. Y si ese tierno infante ya no es tan tierno ni tan infante y siente la necesidad de ver con sus propios ojos a ese 'monstruo' que nosotros hemos creado? A lo mejor se encuentra sólo con una biblioteca perfectamente ordenada, pero se siente más libre y capacitado por el hecho de haber traspasado su miedo. No, esto no es una incitación al suicidio. Es una humilde y breve reflexión sobre lo que me provoca la mirada de Ramón Sampedro. Un espíritu libre que no atendía a los dictados de nuestras supersticiones, miedos e impotencias, y que decidió, de forma voluntaria, profundamente meditada y contrastada, asomarse al otro lado justamente para vencer al único monstruo que le aterrorizaba: el de una vida que él sufría como indigna e injusta para con su alma, su sentido común y sus seres queridos.

Podemos estar de acuerdo o no con él. Aún así, quienes somos nosotros para decirle qué tiene que pensar y cómo ha de sentirse? Eso sería tan absurdo y despreciable como intentar convencer al que esté en su misma situación de que lo mejor es que se quite de en medio. Ambos son signos claramente injustos y egoístas de proyección de nosotros mismos y nuestros temores en el otro, aquel que decimos amar.

Pues bien, ésa es la mirada de Ramón Sampedro, la de un amor incondicional de él hacia nosotros, abrazando nuestras contradicciones y acariciándolas con su sonrisa. Ahora nos toca a nosotros devolverle ese gesto tierno y último a él: la reflexión y el respeto hacia lo que él significó. Nos anima a que le escuchemos desde esos ojos lúcidos, amables y valientes. Y nos invita a esta fiesta de la razón más poética desde sus versos. Sus versos. Su razón."

(Cuando yo caiga, Poemas de Ramón Sampedro, MR Ediciones, Madrid, 2004. Epílogo de Javier Bardem, pp. 132).

 

Depois, vou mais além.

Compreendo que:

Com a consciência do "Eu",
a prática da respiração
se torna um compromisso
ou uma atitude de nutrir a Vida...

Contudo, respirando durante 28 anos em seu leito e estado tetraplégico, Ramón San Pedro tentou, em vão, nutrir-se da Vida que, para ele, era muito mais do que estar prostrado numa cama e vivendo apenas de "ensoñaciones".

A partir dessa compreensão, então, penso que a consciência de se estar vivo, neste caso, não passa simplesmente pelo ato mecânico de respirar, mas sim, pelo conceito, extremamente pessoal e individual, de estar na Vida e de ser humano, cuja dignidade deveria estar presente em cada inspiração e expiração e em cada pulsar do coração. Acho, também, que é por isso, que eutanásia significa "morte com dignidade", para quem, a todo custo, tenta resgatá-la e recuperá-la não se sabe mais de onde.

 

O tema é altamente complexo. 

O debate é contínuo e eterno, portanto.

Segue aberto.

 

Fico com o lindíssimo poema de RAMÓN, recitado por javier Bardem, no filme MAR ADENTRO

https://www.youtube.com/watch?v=upQdxtdCikA

Brasília, março de 2005.

..............................................................................................................................................................

REFLEXÃO 2 - A volta do Exílio

"Quando voltei, foi como se os meus doze anos de experiências na Índia e no Tibete fossem um sonho. A lembrança e o valor daquelas experiências transcendentais pareciam um sonho diante do choque cultural que foi a volta para a minha família e para meu trabalho no Ocidente. Velhos hábitos voltaram com rapidez incrível. Fiquei irritadiço, confuso. Eu não cuidava do corpo, vivia preocupado com dinheiro e com os relacionamentos. No pior momento, tive medo de estar perdendo o que havia aprendido. Então, percebi que não dava para viver numa lembrança iluminada. Ficou claro que a prática espiritual é o que estamos fazendo agora. O resto é fantasia". (Jack Kornfield, em "Depois do êxtase, lave a roupa suja". Cultrix, pag. 113).

Por uma coincidência, sincronicidade, melhor dizendo, dessas que ocorrem a todo momento, se estamos atentos e presentes, li algo (a epígrafe destas linhas) que se encaixava incrivelmente com algumas coisas que venho sentindo nestes últimos 06 meses, depois que voltei da Espanha. Tanto que meus olhos se aproximaram mais e mais do livro, como se quisessem dizer: "É isso"!  Minha experiência lá, acho que, como qualquer experiência, foi única. Pelo menos para mim. Alguns poderão não compreender isso. Outros, talvez, acharão estranho eu continuar com estas sensações, até hoje (6 meses depois). Já me disseram que eu levaria no mínimo 01 ano para poder dizer que estou de novo readaptada ao meu mundo aqui.  Lá, foram 5 anos de um "retiro", de um pequeno "exílio" (chamo de "exílio voluntário" os 5 anos em que vivi em Madrid para cursar o doutorado) onde, em princípio houve muita confusão interior, resistências, lutas, tristezas profundas, quis voltar. Depois, houve o abandono, a entrega, comecei a ver com outros olhos, a enxergar as coisas de uma outra maneira, a viver cada minuto como se fosse único., a maravilhar-me com as coisas mais simples, a apreciar a solidão, a amar a própria companhia. Acho que essa foi e é minha particular forma de espiritualidade.

Hoje, o que eu quero é compartilhar isso que eu li.

Inclusive para ver se encontro generosos ecos cúmplices. 

Brasilia, julho de 2005.

 

.............................................................

 

REFLEXÃO 3 - SILÊNCIO E ATENÇÃO PLENA

 

"Atenção Plena": LAVAR OS PRATOS. APENAS LAVAR OS PRATOS. TOMAR UMA XÍCARA DE CHÁ. APENAS ISSO.



“Enquanto estiver lavando os pratos, deveríamos apenas lavar os pratos, o que quer dizer que enquanto lavamos os pratos deveríamos estar completamente conscientes do fato que estamos lavando os pratos. Parece meio bobo assim à primeira vista: porque dar tanta preocupação para uma coisa simples? Esse é exatamente o ponto. O fato que eu estou lá em pé lavando aqueles pratos é uma realidade incrível. Estou sendo completamente quem sou, seguindo minha respiração, consciente da minha presença, e consciente dos meus pensamentos e ações. Não há como ser lançado dali inconsciente como se fosse uma garrafa batendo nas ondas aqui e ali.
(…)
Se enquanto estivermos lavando os prato pensarmos somente na xícara de chá que nos espera, assim apressando a lavação dos pratos que eu possa me livrar deles como se fossem um transtorno, então não estamos “lavando os pratos para lavar os pratos”. Mais que isso, não estamos nem vivos durante o tempo que estamos lavando os pratos. Na verdade, estamos completamente incapacitados de perceber o milagre da vida enquanto estamos ali na pia. Se não conseguimos lavar os pratos, há grandes chances de não conseguirmos tomar nossa xícara de chá também. Enquanto tivermos bebendo o chá, estamos pensando em outras coisas, dificilmente conscientes da xícara em nossas mãos. Assim somos sugados para o futuro — e incapazes de viver sequer um único minuto de vida.”
- Thich Nhat Hanh, em “O Milagre da Atenção Plena (The Miracle of Mindfulness)

Isso me faz lembrar de outro conto Zen,"A SIMPLICIDADE ZEN". Andar de bicicleta para andar de bicicleta. Simples assim. De minha parte, observo que, de uns tempos para cá,estou mais "presente" nas coisas que faço. Meu corpo simplesmente pede isso. Não preciso me esforçar. É como se fosse uma "ordem interna" demandasse ordem, sossego, serenidade. O movimento é quase instantâneo, imperceptível, instintivo. E o barulho cessa. Em muitos deles, por exemplo, agora, quando escrevo, não necessito escutar música, como antes. Fazer duas coisas ao mesmo tempo é quase impossível. Mesmo música clássica, que gosto muito, me acalma e me transcende. Simplesmente não sinto falta. Ultimamente, tenho preferido o Silêncio, ou o "escutar a Vida". Esse não me distrai. Pelo contrário, o Silêncio me atrai para as coisas simples, básicas, essenciais. Ele me acalma e me traz paz, me traz para dentro de mim. Preciso sempre escutar o meu silêncio.

Brasília, 1º de Maio de 2013.

 

.............................................................................

 

REFLEXÃO 4 -De angustias e ilusiones: Carta a un amigo

08/05/2013 12:39

Fecha: Madrid, jueves, octubre 14, 2004  2:44 pm.

Aquí estoy en Madrid, entre el atropello de última hora para organizarme e intentar escribir y reunir - más de lo que puedo - papeles, letras y libros, e intentar conciliar las angustias y las alegrías, intentar concentrarme en la realidad sin dejar de disfrutar de la imaginación y de la fantasía.

O, al revés, como queréis. 

Con ello quiero deciros que estoy viviendo momentos un poco raros de término de una etapa y de cerrar una puerta, que tú, mi amigo, sabes un poco cómo es. Alguna diferencia, por supuesto, habrá, entre tu proceso y el mío. Dentro de unos pocos meses me marcho a  mi tierra, a mi país, a otro continente, cuya distancia cuyas actividades que desarrollo allí me permitirán saltar a este otro lado del charco, de vez en cuando, como me gustaría. Entre otras dificultades y nostalgias y del natural proceso de (re)adaptación que ahora busco no vislumbrar pero que es difícil de olvidar...

También tengo la ilusión de lo bueno, es decir, de volver a reencontrar a mis hijos, a mi familia, a pisar en mi tierra, de volver a mi trabajo, a un trozo de mi vida que quedó allí durante los casi completos 5 años en que estuve aquí a vivir en España.

Lo más inmediato, con todo, es terminar de escribir y depositar la tesis doctoral. Y en ello estoy. A pesar de que eso sí parece ser también lo más difícil. Sobre todo cuando se es muy autocrítica y autoexigente y si tienes un director competente pero altamente riguroso e igualmente exigente. Tengo mucho más de 400 páginas escritas pero todavía queda algo, según le parece.

Y a mi también, en cierto sentido. Sin embargo, siento e intuyo que "el círculo se está cerrando". Porque escribir una tesis - en cierta medida - es también hablar de uno mismo. Es reflejar un poco de sus propias huellas en el papel. Es dejarse ver a su propio espejo y a su propia identidad. Es vivir la angustia y el sufrimiento de se expresar en Vida.

Comparo esa experiencia como a una gestación de un hijo. Terminar de escribir una tesis es como parir, es como dar la luz a un crío, con todos los dolores, alegrías e ilusiones de un parto.

 

¡Que sea normal y que sea bienvenido!...

Fecha:  jue oct 14, 2004  2:44 pm.

 

.............

 

REFLEXÃO 5: OS SONHOS

A lembrança do sonho que sonhamos não é, de fato, o sonho que sonhamos. A lembrança não corresponde ao sonho; é apenas a lembrança daquilo que conseguimos transmitir como sonho. O sonho sonhado ficou lá (subconsciente, desperto pelo sono). A lembrança (consciente, quando o subconsciente adormece) é apenas a interpretação passageira que temos dele.

 

.......................

REFLEXÃO 6 - EM DIAS ATUAIS
Por Lucia Barros Freitas

Em outra ocasião, eu disse que toda transgressão pressupõe o ato de ultrapassar a normativa vigente, o status quo, que estabelece e demarca limites num determinado núcleo ou sociedade. E a obediência pode ser transgressora quando, mesmo obedecendo, o indivíduo transgride. Mas a transgressão, quando cega e apenas atrelada ao que delimita e determina a maioria, paradoxalmente corre o risco de ser obediente.

Oxalá os vigorosos protestos que aconteceram e ainda estão acontecendo no país e as mudanças almejadas não sejam apenas um modismo - ímpetos e sobressaltos, espasmos momentâneos que nos desviam de outras obviedades da vida - mas, sim, uma real tomada de consciência política, individual e coletiva.

Por isso, é necessário que a ação não se limite ao mero ativismo: ela deve estar atrelada ao esforço da reflexão madura, responsável e consequente para que a teoria, de fato, se revele em prática. e para que o oprimido não se converta em opressor.

Para minha perplexidade, adveio a repentina ideia da realização de uma Constituinte. Poder Constituinte? A nossa Constituição da República de 88 é das melhores do mundo e sequer prevê a possibilidade de uma Constituinte exclusiva. Não há tempo a perder. O que falta, o que está em pauta é a aplicação in continenti, adequada e correta das normas constitucionais e infraconstitucionais. Só.

E, além de Ética e Transparência absoluta, o que o Brasil precisa é de coerência, seriedade na aplicação do dinheiro público e - a prática vem demonstrando - de uma assessoria jurídica à altura, para orientar melhor os poderes instituídos. O resto não passa de retórica, de mera estratégia política, de perda (ou ganho) de tempo, de desvio de foco e de distração.

Depois, um Plebiscito para auscultar a opinião pública sobre a Reforma Política, além de demandar gastos exorbitantes - que comporta toda Eleição (Plebiscito é uma forma de eleição, quando se reponde perguntas)-, não vem ao encontro (atender) das inquietações, angústias, descontentamentos e anseios da população.
Aliás, no momento presente, em que está em pauta e se discute, inclusive, desvio de dinheiro público, "contenção" deveria ser a palavra de ordem. Até para que se possa colocar "ordem na casa". E mais: É bom lembrar que Reforma Política constitui apenas 01 (um) dos vários itens no elenco do clamor popular, do povo, das Manifestações. Outras urgências terão esperar. Até quando...?!